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sábado, 3 de agosto de 2013

Burguês

[ J. Vitor ]

Sou um construtor compulsivo; as edificações da cidade se declaram diante dos meus olhos. Cada prédio erguido se mistura com a massa da minha tapera. Sinto inveja irrefutável por perceber que a arquitetura é dividida por tantos: pelos profissionais da construção.
A impressão vem no pensamento e mostra que meu raso trabalho é igual à de uma formiguinha! Saio pelas ruas deste São Paulo. Caminhando pelas avenidas o meu questionamento se perde nos bairros; filas de prédios desfilam numa passarela de beleza surreal. Sinto-me orgulhoso e ao  mesmo tempo pressinto que os meus dedos são como velas e aos poucos, muito pouco não terá neles um fiapo de luz para talhar uma decoração.
Sou um construtor imperceptível  que mede as alamedas, que observa os recapeamentos das ruas, as calçadas com topes de revestimentos, as árvores com espaçamentos de covas iguais, trepadeiras cobrindo os muros, vergas e arcos edificados em casas e prédios.  Pergunto: Sou um construtor? Tenho dúvidas!  Estou macambúzio.  Sinto, sinto uma pitada de ciúmes quando passo diante dos monumentos de Oscar Niemeyer.
Ah! Se ao menos eu tivesse a certeza de presenciar mais uma década da minha própria construção…!
Percebo que sou comum e que o crescer da cidade me deixa mui pequenino. É inevitável olhar o externo dos prédios; ocultamente sei que dentro deles há cômodos e que suas paredes são fincadas no prumo, no delinear de azulejos, pastilhas, tintas…  Sinto-me ordinário por ser um artesão tão pequeno e anão, e que no máximo, as minhas mãos somente tocaram no pão de cada dia.