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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

CARTA

ESCRIVANINHA


Querida, escrevo-te agora, sem mais nada pedir a que não seja mostrar-te os rumores dos silêncios e a cartilha das recordações. Retornar distâncias me exaspera um pouco… por que já tive dias de andar o mundo, dias de ser louco e ter as roupas encardidas, ter a barba crescida, e até ter no ditado do meu rosto um homem vagabundo.

Hoje sou um ponderoso senhor, contudo, dei uma pausa no presente, e saí para rever e reler um pouquinho dos pergaminhos.
Saí como um ermitão no deserto — eu e o meu camelo.
Na delonga da memória senti sede, cai na rede da miragem, voltei ao caminho para onde eu tinha certeza do oásis, beijei as suas águas lavei saudade por saudade, enchi os odres, descansei o camelo.


Cheguei à pirâmide dos primeiros destinos, emborquei-me pelas pedras conseguindo vazar a recâmara, fiz vista grossa para as esfinges; importava-me abrir a arca e tirar dela as escritas do passado: Eis que veio o passado, trouxe o enlevo, fez voltar à poeira, então eu cedi o corpo e me tornei a sentar no rústico paralelepípedo onde sentamos naquele dia quase ao topo das escadarias – eu e você – 


Aos nossos pés deixamos escorregarem as mochilas, o avental escolar, e o tempo escorregava ao quanto olhávamos através das árvores para elucidar as estrelas. O globo parou…! As palavras eram esparsas; o coração entre os dedos… escondia-se. O hálito da noite descia em nós, e, no entanto não tinha como te propor a Lua. Meus olhos fugiam de mim e se punham no Orbe lunar – convoquei então o além da luz, contudo nada lhe propus. Não tinha como lhe ofertar uma casa, um espaço no quintal onde pudéssemos estender as roupas. E como lhe dizer? – Não queria esperar o próximo verão. Nada disse! Por limpidez, sabias tu dos meus pensamentos aflitos e num rápido instante, pensei… quem sabe? — ouvisse a tua fala submetendo-me num alívio ao dizeres que esperaria por mim; mas não, talvez naquele instante bastasse para ti o fato de estarmos ali; para mim não bastava… não bastava o simples parecer de namorado.
Eu precisava dar esperanças para um ser apaixonado, a minha cabeça turbilhoava, por que ao mesmo tempo… estar ali… ter a tua presença… enriquecia o meu coração.
Daquela noite não sei dizer-te quanto, mas tenho dela um desenho que os olhos nunca mais souberam fazer, nunca mais vi uma lua tão perfeita e que tivesse nela a condição de ser bisbilhoteira. Nos vão das folhas de eucaliptos… bem acima ao corpo da sua copa espaçava o céu, vazava os raios claros, tocava os nossos corpos… indeléveis o amor trocava brilhos através dos olhares. Passaria contigo aquela noite inteirinha sentado naqueles degraus de paralelepípedos.
De onde estávamos aos lados só havia a negrura da noite e aquele lindo transcenderem da lua transmitindo os troncos dissipados da terra, o chão coberto de gravetos e das folhas secas que faziam uma combinação de harmonia. Se eu pudesse teria sido dono daqueles minutos, seguraria dele o fósforo, faria tantos outros incêndios ‘visto pela minha condição de estar apaixonado. ’

A translucidez de querer o mundo naquele segundo separava-nos como se fossemos corpos amarrados em troncos deixados na ufania da cachoeira; assim também rugia os pensamentos… “irregulares;” Tais eram como se eu estivesse nas asas do píncaro sem ter a sorte de saber o manto da Oceania. 

Senti naquele deslace o coruto da cidade dura. Se caísse, certamente a dor me abarcaria.  
Busquei encontrar a face da Lua, havia fugido… Arrastei-me pelas pedras… Estatelado.
Por muito tempo carreguei o corpo desmesurado, a alma esfacelada. Sobrou à descoberta do acaso, fazia-me ver os oceanos...  inconsciente pranchei até que então me recobrei do desmaio, e pude perceber que estava pinchado numa praia semi deserta...

de J.Vitor