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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Culpa


Não havia ninguém em casa.  Entrei estrebuchando pelos cantos do corredor.
Agachei-me contorcido pelo piso. Agoniado, consegui me prover de um copo com leite, pois pensava que iria remediar a dor súbita que estava sentindo. Que terrível engano! Tornei a me pinchar no chão e passei o martírio de uma formiga que vive o estouro de uma boiada,  atônita a formiguinha ergue a mandíbula olha para cima e enxerga a invasão dos monstros…
A terra treme, e por sorte, o destino das passadas vai se abrindo e permitindo que por instantes ela escape de ser pisoteada. Mas nem tanto, somente a sensação da pequenez é o suficiente para que ela sinta-se com as perninhas destroçadas do tórax e o abdome macetado entre capim e esterco…  Percebe a vida escapando por segundos.
Debaixo daquelas estacas de pernas bovinas, somente lhe cabe inocentes culpas, pois, imagina-se num pecado humano e na insensatez de ter roubado da geladeira, o tal copo de leite. Portanto agora, imagina que nas próximas passadas, a manada lhe fará cobrança por tê-La como cúmplice de ordenhadores que bolinam as mamas das vacas!     
E eu, jogado na cólica, vivenciava o desespero da tal formiguinha, como se naquele pasto invadido pela boiada fosse sobre meu corpo.  
É como se as vacas tivessem fazendo um acerto de contas e readquirindo o suco do seu corpo, e então, preparava vingança pelo atrevimento de a terem tocado nos bicos e deles lhe tirarem o leite que a humanidade rouba.   

    Passando pelas agruras, aquele copo com leite, aumentava a dor que eu sentia numa penitência impagável.