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domingo, 8 de setembro de 2013

Não Fugimos

[ José Vitor ]

De onde estou vejo decair o céu na encosta da cordilheira; sei que depois dali está o oceano, e por coincidência pode estar o navio negreiro que um dia nos arrastou através dos mares.

Era pequeno. Vovô sentava embaixo do seringueiro. Eu e meu irmão cruzamos ao redor dele para ouvi-lo contar: — Não eu, dizia ele, mas meu pai e outros do mesmo povoado vieram daquele marco… apontava o dedo na direção. Olhávamos para ele, e sentíamos as agruras.

“Vovô morreu.”

“Crescemos.”

“Mistificamo-nos.”

Uma vez por outra vêm do horizonte ventos impetuosos. Traz um breviário especioso.

Hoje, sou um afilhado de Izabel. Ela, a boa senhora, lá do seu céu bem sabe do usufruto do nosso progresso, bem sabe ela da posse do milho e da mesa semifarta, da mandioca que brota na troca de uma nota igual. Tenho previdências que ela não teve outrora, tenho a ponte aérea, a imagem via Embratel, conversas gravadas de Nelson Mandela, e por derradeiro, informações de ponta que aprimoram o meu papel!

De onde estou, olho para o céu, e percebo desvalidos os orixás. E dos seus lugares funde-se em mim o sorriso de Deus!

Deus abriu lamparinas no meu caminho. E eu interpretei a tudo com a necessidade de comprar um terno para o natal. Quando chegar a época da ceia, quero que saibam… os filhos, — nós não fugimos do Egito, sim, Deus nos tirou de lá.