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quarta-feira, 7 de julho de 2010

A carta do retirante Sinvaldo


Na lembrança ficou última despedida,
Caminhou até chegar à saída, (ali beirava a rua dos retirantes)
Desceu dos ombros os arranjos que pusera no embornal,
“pertences para viagem: rapadura, carne seca, pente…”
Uma foto e alguns panos para vestimenta.
Ergueu as mãos num definitivo adeus.
Ela erguera também lançando beijos.
Recolheu os beijos, flutuaram juntos.
Desfez sua atitude peculiar...

Depois, veio o primeiro dia perdido na rodovia
Chegou ao Rio de Janeiro...
Sentia-se único; as pernas tremiam das tantas coisas que via,
O sentido ficou furtivo e sem rumo certeiro...

Outro que consigo viera lhe dera informações básicas.
No terceiro dia, ele se fora, a porção de carne que trazia
Terminou junto com a rapadura.
Caminhou perdido; buscou trabalho nas construções, nas fábricas.
Na Quarta noite, sentado na praça, puxou um lápis e uma folha amarrotada.
 (havia prometido escrever, assim fazia):

“Minha amada do sertão,”
Consegui chegar à cidade grande,
Há muitas construções de pedras
Há comércios amplos, vendem de tudo!
Para descrever o que vejo precisaria de muitas letras,
Prometo ir fazendo aos poucos, em outra carta com outro lápis, não este, que de pequeno não me cabe nos dedos,
Nem nestas linhas derradeiras deste bilhete.

— Esta carta ficou em suas mãos, sem postal de selo
Duas ou Três linhas a mais foram escritas, nada mais
Adormeceu encostou-se num arranjo de tábuas, perto dos cais.
Quando acordou, havia uma torrencial de chuva, viu estar sem a carta.

Haviam se ido às letras, eram lavadas de enxurradas.
No mais dos dias se alguém o viu, foi abstinente,
Um pedinte de presente, sem passado sem futuro e nada de estima!


de J.Vitor