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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Diário e citações

Escrever é uma intimidade que causa prazer, não que seja destro no entretém, não que tenha intentos de escritores. O que tenho são estas linhas. Dou a elas o nome de vaidade, dou-lhe muitos outros adjetivos, pois este é o meu desvanecimento, chega a ser a minha roupa de passar o tempo; tempo de ócio (pouco e pequeno). Verazmente são trinta anos de Diário, trinta vidas de citações. É toda tinta do tubo, é a caneta com pena gasta, é toda letra devassa sobre o caderno puritano.
Tem revelações que foram escritas com o dia, mas, entre tantas tem situações que o tempo não me deixa esquecer. — o que faço se não sei plantar árvore? Que outra coisa me caberá bem? — marcar datas… não sei. Memorial para aniversários… não sei cantar parabéns… avexa o rosto.
(Uma ressalva, o texto aqui escrito, não segue cronológica, não segue ano, ele vai e volta nas folhas revessas: explica-se pelo fato de não Ter tido antes a intenção de vê-las juntas)
Uma característica pessoal: sou teimoso, aposto nas fases, aposto no oposto, aposto não estar sentado aqui daqui a cem anos, caso esteja terei 152 aniversários feitos. Você se estiver nesta data lendo a isto, poderá Ter 125 anos, visto que tens agora 27, se a tua filha ler caberá a ela 107 anos. É! Não tem nada não! Sejam lá adiante estas bíbulas, assim, se me chamarem de tolo, “serei um tolo caduco”.

Escrever é legal, é se sentir cerebrino, ex.: aquela privação do passado deixa de ser risível, passa a ser uma centelha a mais, uma experiência a mais, uma identificação que se pode corrigir a lápis.
Vejo-me agora, de quando comecei este dial, tinha vinte e dois anos; o moço era cheio de garra, cheio de vontade, de verdades, de ansiedades. Era ele um Cristão de princípio, filho de Pai Abraão, filho desde 55, desde o véu rompido… caminhava…
Do outro lado uma moça, também cristã (17 anos), vinha…
Encontraram-se, Ambos careciam esquecer a inibição, dava-se deste jeito o encontro, a alma menina com a do menino. Abriram os olhos, estavam ao término de uma recente novidade. Não estavam mais a sós.
Tinha a frente uma porta; entraram, lá depuseram suas palavras, seu namoro, noivado e casamento… prestes se fizeram de iguais: brindaram… casaram. Muitos vieram para beberem vinho, comerem bolo, doces e salgadinhos.
Passaram a serem vistos como casal de estabilidade, ordenados da fertilidade, prontos para disciplinarem o infortúnio e continuarem pelo porvir duradouro.
Saía o moço para o trabalho... Os dias passavam. No final do mês, um salário pequeno. Comprava para os trintas dias: energia que acendesse as lâmpadas do candeeiro, água para o arroz e banho.
Mistura? — uma vez por outra, chuchu, ovos fritos.
Viviam com os olhos amarados.
O tempo em sua pressa seguia, a roda da vida seguia, a expectativa de meses melhores era a alavanca da espera. Esperava-se que o saldo bancário tornasse maior e que um pouco daquele aperto abrandasse, e que, ao contrário, tornasse menor. No caminhar do tempo, o saldo na conta tornou-se maior. Porém um punhado do aperto continuou ainda se comia chuchu sem carne, sem farinha; às vezes sem feijão. Contudo, o primor crescia, transforma-se em determinação.

Era uma casa no meio de tantas, surgia no detalhe de acertos, falta de tintas novas. Outras vezes carecia de consertos, de telhas, de mais cômodos, e assim se fazia de época, de salário, de cada oportunidade. Carecia do requisito do honorário, das horas extras, da poupança sofrida.

O relógio de segunda a sexta feira delegava seu horário programado. Ele saltava num sobressalto ajeitando-se na beira da cama, erguia-se meio bambo apoiando a mão na parede do corredor estreito, seguia sonolento até ao vaso, curvava os braços tocando os cotovelos nas coxas. Apoiava o queixo nos punhos atendendo a deixa da bexiga e do rim produtor aflito.

Ressonava mais um tanto preguiçoso.
A sua frente estava o metal gélido fincado no granito; corcoveava a mão e subia com elas no rosto, as primeiras águas tocavam-o de leve, as últimas venciam o incomodo da morbidez. Depois vinha a escova de dente, o perfume; aquentar o leite; a repetida escova, fazer o café, tirar a marmita da geladeira, o gesto da primeira saudade…
O mesmo relógio da o segundo alarme. Agora chama a outro nome: Dona mãe de quatro filhos, acorde!
Ela abre os olhos e se vê rodeado dos quatro. Um deles faz um pedido de leite, os outros repetem em coro: leiiite pããão e chocolaaate. É o verdadeiro atenazar de choramingas, de fraldas a serem trocadas, de uniformes para passar e da buzina desesperada que espera pelo mais velho.
A dona manhã passa rodeada pela sai; vem o horário novamente da buzina aflita, avisa à hora do almoço, pronto, é o despacho do menor que vai junto com o filho da vizinha. À tarde… quase sobre controle… chega à vez de ir buscá-los.
O relógio de sábado e domingo descansava. Nada de comércio, nada de nada ajustado. Restava-lhe a balde, as rosas no jardim, a poda do espinheiro; levar as crianças para os dominicais, para o passeio no parque… depois… à noite… o padrão: salvação, os pedidos, os agradecimentos…
No primeiro ano…

Diário de José Vitor